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Quem já não apresentou comportamentos supersticiosos com o objetivo de eliminar a angústia de uma expectativa ameaçadora, como uma desgraça iminente após a passagem de um gato preto, ou antes da passagem por debaixo de uma escada? Com certeza muitos de nós já apresentamos comportamentos irracionais superticiosos quando pensamentos negativos invadem inadvertidamente nossas mentes, como no exemplo das três batidas na madeira para afastar o perigo de que um pensamento ruim se realize.
Ninguém diz que tais pensamentos e comportamentos, no grau em que se apresentam na maioria das pessoas, constituem problemas emocionais graves e dignos de tratamento psicoterápico. Mas, quando alguém, ao se deparar com o medo de que um ente querido sofra algum acidente, envolve-se em uma desgastante rotina de checagens de sua casa, verificando repetidamente as condições de segurança de luz, gáz, janelas, portas, etc, a ponto de perder um tempo exagerado e prejudicial ao prosseguimento de suas tarefas diárias, podemos aí dizer que se trata de uma doença? E no caso de alguém que ao se deparar com um pensamento do qual se culpa, vê-se obrigado a realizar rituais complicados de limpeza de seu próprio corpo a ponto de passar horas no chuveiro até que a angústia provocada pelos próprios pensamentos se dissipe?
Estes são apenas dois exemplos de situações onde pensamentos, idéias, impulsos ou imagens, conhecidos como obsessões, são vividos como intrusivos e inadequados, causando acentuada angústia e sofrimento. O indivíduo tomado por tais obsessões, em geral tenta eliminar tais impulsos ou pensamentos através de outros pensamentos ou imagens que lhe sirvam como neutralizadores do desconforto, ou através de comportamentos que afastem suas preocupações. Tais pensamentos ou ações neutralizadoras são conhecidos como compulsões. As compulsões são comportamentos repetitivos ou atos mentais com vistas a prevenir ou reduzir o sofrimento gerado, em geral, pelas idéias obsessivas. Obsessões comuns envolvem temas de contaminação (pelo contato com pessoas, roupas ou objetos) , dúvidas repeditas ( se tomou a decisão correta, se prejudicou alguém, se verificou adequadamente determinado ítem de segurança) , impulsos agressivos e vergonhosos (matar ou machucar um ente querido, realizar publicamente uma obscenidade) e necessidade de organizar as coisas com intenso sofrimento e rigidez. As compulsões mais comuns envolvem lavar, limpar, verificar, obter reasseguramento das pessoas, repetir ações de forma ritualizada e exaustiva, ordenar e organizar objetos.
A existência de obsessões e compulsões suficientemente severas, consumindo tempo excessivo e provocando sofrimento e prejuízo significativos para o indivíduo, junto ao fato de que este tem a consciência do caráter excessivo e irracional de seus atos e pensamentos, caracteriza o Transtorno Obsessivo- Compilsivo. Os manuais psiquiátricos desenvolvem apropriadamente as características e os critérios diagnósticos para esta doença, que se apresenta de forma relativamente rara na população geral (1,5 a 2,5%).
Apesar do diagnóstico do Transtorno Obsessivo- Compulsivo não se apresentar de maneira geral como uma tarefa difícil, seu tratamento ainda representa um desafio para a comunidade científica. Diferentes teorias explicativas evoluem, ensejando intervenções em diversos níveis ( psicodinâmico, comportamental e bioquímico). Discutimos em outro artigo o tipo de intervenção que uma abordagem integradora cognitiva e comportamental propõe para o tratamento deste problema.
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